A Comissão de Recesso da Assembléia Legislativa realizou, na manhã desta terça-feira (28/07), audiência pública para debater a liberação de corpos advindos de acidentes automobilísticos pelo Instituto Médico Legal (IML) e pelo Serviço de Verificação de Óbitos (SVO). O debate foi solicitado pelo deputado Fernando Hugo (PSDB) e ao final dele, ficou decidido que a Comissão de Recesso irá formalizar o pedido de investigação das denúncias feitas pelo Sindicato das Empresas Funerárias do Estado do Ceará.
Segundo Fernando Hugo, as denúncias encaminhadas a ele pelo Sindicato "dão conta de que está havendo uma máfia na liberação de corpos por funcionários do IML". Conforme Hugo, eles estariam encaminhando os corpos apenas para funerárias que eles representam dentro do Instituto. "Há, ainda, verdadeiras quadrilhas que se aproveitam da situação e cooptam as famílias para receber o Dpvat, quando as vítimas sofrem acidente automobilístico", comentou.
Ainda conforme o parlamentar há denúncias de que o trabalho de embalsamamento de cadáveres, não realizado pelos funcionários do IML, estaria sendo feito, nas dependências do órgão, com cobrança do serviço (em torno de R$ 300,00). "Em função dessas denúncias, sugiro que haja uma defensoria pública permanente dentro do IML", sugeriu.
A presidente do Sindicato, Iracema Nobre, confirmou as denúncias, acrescentando que uma cliente da sua funerária chegou a pagar todo o serviço, mas na hora de fazer o translado do corpo, cancelou o pagamento por ter sido induzida por um funcionário do IML. "E também temos informação de que escritórios de advocacia se apropriam da situação propondo mais agilidade no recebimento do Dpvat, quando sabemos que ele é um direito da família da vítima, que não precisa ser intermediado", observou.
A vice-presidente do Sindicato, Ana Cristina Nogueira, pediu que as denúncias sejam investigadas "para que a sociedade cearense não aceite esse tipo de corrupção". Conforme ela, há funcionários de funerárias que ficam até "temerosos" em receber os corpos. "Inclusive, muitos já contaram que funcionários do IML recebem propina de certas funerárias para indicá-las às famílias", observou.
O perito geral do IML, Maximiliano Leite Barbosa, disse que existem duas portarias tratando sobre os assuntos. Uma delas, segundo ele, estabelece que os serviços de embalsamamento têm que ser feitos por médicos e não devem ser praticados no IML. A outra portaria diz que não se podem comercializar produtos mortuários nas dependências do Instituto.
"Por isso, é preciso formalizar essas denúncias para que o Ministério Público, a Secretaria de Segurança Pública, o Conselho Regional de Medicina, a Defensoria Pública, a OAB e a Promotoria de Justiça investiguem esses casos", comentou Fernando Hugo.
Também se manifestou na audiência o coordenador de Medicina Legal da Perícia Forense do Ceará, Roberto Rios. Rios disse que "os funcionários do IML não estão habilitados para fazerem serviços de embalsamamento" e que esses serviços não eram feitos no IML. "Não que eu tenha conhecimento, se está sendo feito, é clandestinamente, afirmou. Ele ressaltou, ainda, que manter funcionários envolvidos em corrupção "não interessa ao IML".
EU/AF
Autor: Coordenadoria de Comunicação Social
BRASÍLIA
CPI “exuma” mercado da morte
Deputados aprofundam investigações e descobrem sonegação, furtos e falta de fiscalização sobre serviços terceirizados em cemitérios
HÉLMITON PRATEADO - Em Brasília
Uma Comissão Especial de Inquérito da Câmara Legislativa do Distrito Federal está desnudando os meandros do comércio de óbitos. Funerárias, sepultamentos, DPVAT, caixões e órgãos humanos estão sob lupa e as descobertas evoluíram para ameaças, descobertas macabras e relações promíscuas de integrantes do governo com o "mercado da morte".
O deputado Rogério Ulisses (PSB), presidente da CPI, acredita que será possível moralizar o setor depois de concluídas as investigações. "Certamente nada continuará a ser conduzido com tantas distorções depois dessas descobertas.”
Aprovada no final do ano passado e instalada em março deste ano, a CPI é composta de parlamentares de partidos distintos, com maioria de opositores ao governo. Com essa composição ficou mais fácil avançar em suspeitas que pairam sobre membros do governo, inclusive a secretária Eliana Pedrosa, titular da pasta de Desenvolvimento Social e servidores diretos dela.
As investigações começaram depois que apareceram suspeitas de que a empresa Contil, de propriedade do cearense Francisco Moacir Pinto, administradora dos seis cemitérios de Brasília, havia violado túmulos para fazer novos sepultamentos. Como é praxe em uma CPI sabe-se como ela começa e jamais como termina. Com essa não está sendo diferente e novas denúncias aparecem a cada depoimento prestado.
Os serviços de administração dos cemitérios do Distrito Federal foram terceirizados em 2002 por intermédio de uma licitação. O consórcio vencedor era composto de três empresas: Dinâmica (69 por cento), Contil (30 por cento) e Brasília (1 por cento). A Dinâmica é uma empresa tradicional — que atua no ramo de vigilância, segurança e conservação predial, de propriedade da secretária Eliana Pedrosa. Eliana e seu irmão, Eduardo Pedrosa, garantem que logo depois que a empresa Campo da Esperança, formada por esse consórcio para administrar os cemitérios, assumiu os serviços, a Dinâmica saiu da composição societária.
A dúvida começa neste ponto. O normal é o sócio majoritário comprar as quotas de outros menores e assumir o serviço sozinho. Eliana Pedrosa virou deputada distrital pelo Democratas, mesmo partido do governador José Roberto Arruda e com a posse deste no GDF virou secretária. De sócia de uma concessionária que administra os cemitérios passou a ser a fiscalizadora desses serviços, portanto censora do antigo sócio. É um mercado altamente rentável, se levado em conta que acontecem cerca de 120 mil sepultamentos por ano em Brasília.
Desde sua posse na secretaria, Eliana Pedrosa viu sua pasta ser esvaziada, talvez por alguém que já antevia problemas. Francisco Moacir Pinto acusa a secretária de endurecer a fiscalização sobre a Campo da Esperança e de sair da sociedade quando se fizeram necessários investimentos para cumprir o contrato. Sobre a empresa pesam suspeitas de efetuar vendas casadas de jazigos, de aumentar os serviços de sepultamento nos cemitérios que administra, de não fazer o crematório como previsto no contrato, de sonegar impostos e não cuidar da parte antiga dos cemitérios, onde já não pode comercializar sepulturas.
É fácil deduzir a razão de o crematório não ter sido feito até hoje em Brasília. Ocorre que em Valparaíso, cidade goiana do Entorno de Brasília e distante poucos quilômetros do Plano Piloto, existe um crematório também de propriedade de Francisco Moacir. Entre janeiro de 2007 e maio deste ano aconteceram 340 cremações nessa unidade. Com respeito a esse crematório, a CPI apurou que cerca de 143 de caixões foram doados pelas famílias dos mortos para "entidades filantrópicas", só esses caixões nunca chegaram às entidades. Está provado para a CPI que grande parte deles foi revendida a preços que variam de 500 a 3.000 reais e alguns envolvidos já foram indiciados.
Francisco Moacir prestou depoimento à CPI na última quinta-feira, 12, e disse que não podia esclarecer tudo por ter sido ameaçado de morte. Ele chegou à Câmara Legislativa cercado por quatro seguranças armados e antes de começar seu depoimento pediu para conversar em separado com os deputados. Fontes da CL disseram que ele abriu parte do que sabe do esquema das funerárias e de como integrantes do governo agem contra sua empresa.
Depois do depoimento, Francisco Moacir deu uma entrevista coletiva e disse que ainda não fez o crematório em Brasília porque não conseguiu licença ambiental, que não faz venda casada e que não violou sepulturas. Francisco Moacir Pinto ouviu do presidente da CPI que ainda será novamente convocado para prestar esclarecimentos. Durante sua fala ele não sabia que uma força-tarefa do Governo do Distrito Federal vai devassar os serviços que ele presta, inclusive as suspeitas de sonegação de impostos e que se for comprovada sua desídia e descumprimento do contrato ele poderá perder a concessão.
Papa-defuntos — Outro segmento do mercado da morte assombrou os brasilienses depois que começaram as investigações da CPI. Novamente a secretária Eliana Pedrosa foi colocada no centro das atenções por falta de fiscalização e suspeitas de envolvimento de seus auxiliares com a máfia das funerárias. Em Brasília nunca houve licitação para esse serviço e desde 1999 tenta-se realizar uma que é constantemente travada na Justiça.
A CPI descobriu que durante um período apenas um grupo de funerárias recebeu autorização para continuar operando e denúncias de que tiveram de pagar propina para servidores da secretaria comandada por Eliana Pedrosa apareceram em todos os depoimentos. Hoje existem 64 funerárias cadastradas em Brasília e grande parte disso deverá ser enxugado depois de licitado e moralizado o mercado.
Os deputados distritais fizeram vistorias em várias funerárias e descobriram situações macabras. Órgãos humanos colocados em saco de lixo sem qualquer preparo para evitar contaminação do meio ambiente, venda ilegal de órgãos para escolas de enfermagem e tanatopraxia e descaso com corpos no preparo para sepultamento.
A falta cuidado das funerárias só pode acontecer se não existir fiscalização do poder público. Com respeito às funerárias a dificuldade começa na falta de transparência sobre quem pode operar e nas suspeitas de subornos para conseguir uma autorização ainda que precária. Quanto ao que deve ser regulamentado ou no mínimo fiscalizado para evitar abusos a Secretaria de Desenvolvimento Social e Trabalho, comandada por Eliana Pedrosa, é no mínimo desidiosa em suas funções.
A máfia das funerárias vai mais longe em seu macabro mercado. Foi institucionalizado um serviço chamado de "máfia de branco", complementado por funcionários de hospitais. Sua função é, em conluio com alguma funerária já esquematizada, avisar que alguém morreu para que os serviços sejam imediatamente providenciados. Na maioria das vezes as funerárias ficam sabendo que algum paciente foi a óbito antes mesmo dos familiares.
Há também uma combinação igualmente tétrica entre funerárias e advogados inescrupulosos para direcionar os serviços funerários junto com os serviços dos "causídicos" que receberão o DPVAT, seguro obrigatório que é pago em caso de morte em acidentes de trânsito. O prêmio do seguro é de 13.500 reais. Para a família o seguro pagará os serviços funerários, mas a máfia lucra muito mais ficando com o dinheiro integral.
Mudanças anunciadas
O corregedor-geral do Distrito Federal, Roberto Giffoni, disse na quinta-feira, 12, que o governador Arruda decidiu intervir na questão para conter os abusos. “Será formada uma força-tarefa com representantes do Procon-DF, Anvisa, Receita Distrital e consultores diversos para apurar todas as denúncias.”
O contrato da empresa Campo da Esperança será submetido a lupa e seus serviços fiscalizados de forma ostensiva para verificar sua atuação ou avalizar sua lisura. Entretanto, afirma Giffoni, se algo ficar comprovado sobre as suspeitas que recaem sobre ela a empresa poderá, inclusive, perder a concessão e os serviços serão retomados pelo poder público até nova deliberação.
Como resultado dos trabalhos da CPI a licitação para concessão dos serviços funerários deverá ter seu edital publicado até o dia 5 de julho próximo, segundo o corregedor. "Isto foi um pedido do deputado Ulisses e encampado pelo governador para moralizar o setor de serviços funerários".
O governo anunciou também que serão construídos novos cemitérios em Brasília. O governador Arruda manifestou, por intermédio de seu secretário, a intenção de atender três regiões distintas do DF que não contam ainda com esses serviços: Recanto das Emas, Ceilândia e Paranoá.
A fiscalização atuará também de forma minuciosa sobre os preços cobrados, a arrecadação dos serviços de sepultamento e o comércio de caixões reaproveitados.
Na Câmara Legislativa a notícia foi recebida como um alerta à secretária Eliana Pedrosa de que seu cargo foi colocado sob suspeita de não fiscalizar e de falta de transparência para continuar com a licitação das funerárias. Nenhum funcionário da secretaria comandada por Eliana que tenha sido citado nas investigações ou que sobre ele pese suspeitas vai participar das comissões de fiscalização e sequer se aproximar da comissão de licitação. O comando da operação será integralmente da Corregedoria-Geral.
“MÁFIA DAS FUNERÁRIAS” TINHA COBERTURA DE POLÍTICOS
18/ago/2009 . 10:06 | Autor: Davidson
Uma quadrilha que monopolizava serviços funerários em Porto Seguro, Eunápolis e outros seis municípios do extremo sul baiano, desmontada pelo Ministério Público Estadual e a Polícia Civil, tinha a cobertura de políticos da região. Os nomes ainda não foram divulgados, mas pelo menos um secretário municipal de Porto Seguro “caiu”: Robson Roberto Santana, da Agricultura.
A “máfia das funerárias” era integrada ainda por mais outras cinco pessoas, dentre elas o policial civil Cláudio dos Santos Bispo. De acordo com as investigações da polícia e do Ministério Público, o esquema foi montado em 1999 e usava como fachada as empresas Salmo 23 Indústria e Comércio Distribuidora Ltda., Funerária Eterna Saudade, Mercolbrasil Comércio e Distribuidura Ltda. (nome fantasia Califórnia) e Funerária Universal, todas sediadas em Porto Seguro.
Além de cobrar “valores exorbitantes” das prefeituras por serviços funerários, os abutres ainda recebiam o mesmo valor de familiares dos mortos. O policial civil flagrado no esquema, o Cláudio dos Santos Bispo, acionava as funerárias amigas tão logo ocorria um óbito. Se a família era carente, o secretário municipal de Porto tratava de garantir que o serviço fosse executado pelas funerárias do esquema.
Os integrantes do esquema são acusados de formação de quadrilha, concussão, violação de sigilo funcional, fraude em licitações e lavagem de dinheiro.
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-Confúcio