sábado, 20 de fevereiro de 2010

Grandes feitos na Historia da necropsia no Brasil

O livro Meu Pai, de Carlos Chagas Filho, é de consulta obrigatória para quem quer conhecer a vida do grande cientista Carlos Chagas.

Na página 131 deste livro o autor, ao se referir às necropsias realizadas em Lassance, escreve: “Ali, muitas vezes, meu pai, como os sábios da renascença teve que praticá-las às escondidas”. Este parágrafo remete-nos a história das necropsias proibidas pela Igreja Católica de serem realizadas durante toda a Idade Média, mas depois liberadas, como a realizada no Papa Leão X em 1521, suspeito de ter sido envenenado. As primeiras dissecções anatômicas só foram autorizadas oficialmente na Universidade de Bolonha em 1405 e na de Pádua em 1479. Por ser proibida, ela não deixou de ser realizada pelos inconformistas e pelos que andavam em busca do conhecimento, mas tinha que ser realizada às escondidas, pois a repressão era muito grande a esta atividade, podendo levar seu autor à Inquisição, ao cárcere e a morte. Ainda que dando um grande salto na história, Carlos Chagas sabia que as necropsias não seriam aceitas entre os moradores de Lassance. Desta forma, que estratégias ele usou para proceder como “os sábios da renascença”, e realizar as necropsias necessárias para comprovação das lesões causadas pelo Trypanosoma cruzi no homem?

Procurando informações sobre a polêmica de Carlos Chagas com seus confrades da Academia Nacional de Medicina, tivemos autorização, por gentileza do secretário da ANM, Prof. Sérgio Aguinaga, de ler (e copiar) todas as Atas deste período conturbado, que vai de 1921 a 1923. Assim é que em 21 de outubro de 1921, Belisário Penna tomou posse na ANM e em seu discurso relata como foram realizadas as duas primeiras necropsias em Lassance em doentes, um de fase aguda e outro de fase crônica da tripanossomíase americana, denominação preferida por Carlos Chagas para a doença que posteriormente iria levar o seu nome, por sugestão de Miguel Couto em 1910. Antes devemos lembrar que Belisário Penna foi companheiro convidado por Carlos Chagas para auxiliar na missão a ele conferida por Oswaldo Cruz, a pedido do Ministro Miguel Calmon para implementar as medidas sanitárias necessárias a fim de debelar a epidemia da malária que grassava entre os operários nos trabalhos de construção da Estrada de Ferro Centro do Brasil, no Vale do Rio das Velhas. Também foi junto com Belisário Penna que em Pirapora, Carlos Chagas conheceu o “barbeiro” que lhes foi mostrado pelo chefe da comissão de engenheiros, Cantarino Motta. Mas vamos devolver a narrativa a Belisário Penna: “Que estava faltando para completar a descoberta? O estudo anátomo-patológico da doença, a necropsia. Não dispúnhamos de hospital, e, num meio inculto e atrasadíssimo, eivado de crendices e abusões, falar em necropsia era correr o risco de sérios desacatos e prejuízos para o trabalho. Apareceu caso agudo e fatal de doença bem perto de Lassance e Chagas declarou que, custasse o que custasse, haveria de abrir o cadáver a fim de recolher, no próprio cemitério, material para estudo. Lembrou-se da exumação. Opus-me, formalmente, ao alvitre, que ocasionaria grave contratempo se de leve se suspeitasse de alguma coisa. Comprar o cadáver, por maior que fosse a soma oferecida, era em que não se poderia pensar naquele meio. Recorremos então, a ardil sentimental e piedoso, que deu bom resultado. Por absoluta carência de recursos dos pais da criança morta, soubemos que ela ia ser enterrada simplesmente envolvida num lençol. Propusemos aos pais que levassem para a nossa casa o pequeno cadáver, onde nós o vestiríamos bem e lhe prepararíamos bonito caixão e bom enterro. Aceita a proposta, de noite, de portas e janelas fechadas fizemos a necropsia, retirando as vísceras. Enchemos as cavidades com algodão, recompusemos o cadáver, vestímo-lo, cobrimos-lhe a cabeça com uma bela touca e mantêmo-lo no caixão. Realizou-se o enterro na manhã seguinte sem que ninguém desconfiasse de nada. No dia imediato parti para o Rio e entreguei a Oswaldo Cruz os despojos preciosos que tanta luz projetaram sobre a grande descoberta de Chagas.”

Para a segunda necropsia relata: “Adoece, gravemente, homem de cerca de 30 anos de idade, residente a duas léguas da povoação, meu companheiro de caçadas e caso típico da forma cardíaca da doença. Caso perdido. Convencemos os parentes que a única probabilidade de salvação do doente consistiria numa terapêutica ininterrupta impraticável na sua morada. Propunhamo-nos, pois, a recebê-lo em nossa casa, onde teríamos todo o cuidado com ele. Aceita a proposta, foi o doente removido para a nossa residência, onde veio a falecer dez dias depois, à tardinha. Foi necropsiado, durante a noite, por nós e pelo saudoso Gaspar Vianna, presente em Lassance".

“Eis aí como se realizaram as duas primeiras necropsias evidenciadoras da ação patogênica do Trypanosoma cruzi” (Penna, 1921).

Estes fatos encontram-se também relatados no curioso livro, em forma de perguntas e respostas, de Milton Carneiro (História da doença de Chagas, Curitiba, 1963 encontrado em http://carloschagas.ibict.br/doenca/sec/aspecthis.html.



Naftale Katz - Centro de Pesquisas René Rachou/ Fiocruz Minas; cademia Mineira de Medicina; Instituto Mineiro de História da Medicina, Belo Horizonte/MG, Brasil

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-Confúcio